Há algumas semanas Pedro escreveu um texto entitulado “A diferença entre crentes e ateus” no qual em princípio pretende buscar compreender ou pelo menos descrever, num exercício de empatia, a posição dos ateus não como vistos pelos crentes, mas desde o ponto de vista dos próprios ateus. O texto demonstra uma incompreensão embaraçosa da posição de quem não é crente. Diante disso, achei que seria didático e esclarecedor fazer o exercício de descrever “a nível de ateu” o que de fato penso sobre certos assuntos, inclusive o que eu de fato penso sobre o que os crentes pensam.
Para começar, observo que já de saída o Pedro supõe que haja muito mais unidade ideológica e de crenças entre os ateus do que realmente há. Com poucas exceções, que em geral surgem como subconjuntos de sistemas mais amplos de pensamento, o ateísmo raramente surge como uma instituição organizada com dogmas ou qualquer tipo de ortodoxia. Quem não acredita em deus em geral não acredita e pronto, individualmente. As pessoas que acreditam em digamos Papai Noel talvez tenham alguma coisa em comum. As que não acreditam costumam simplesmente não pensar nisso, assim como os católicos não ficam em geral gastando seu tempo se reunindo para refutar a existência de Shiva. Evidentemente caso fosse contra a lei não acreditar em Papai Noel ou se pessoas começassem a me insultar por eu não acreditar em Papai Noel talvez eu gastasse mais tempo discutindo Papai Noel. Mas mesmo nesse caso Papai Noel em si mesmo permanece rigorosamente inexistente e irrelevante; são as pessoas falando de Papai Noel que se tornaram um assunto.
Mas voltemos as afirmações específicas que Pedro faz. Ele começa por afirmar :
Ambos dirão que apenas se submetem à verdade; ambos dirão que seguem suas consciências; ambos dirão, mais ainda, que o que os diferencia do outro lado é o estar certo, o ter razão.
De fato, os religiosos parecem em geral dizer e acreditar exatamente nisso (que o que os diferencia do outro lado é estar com a razão). Mas claramente uma grande parte dos ateus – especialmente os que têm uma posição mais científica – dificilmente concordariam que os que os distingue dos religiosos seria “o estar certo, o ter razão”. Afinal, “estar certo” é algo a que não temos acesso direto, e repetidamente descobrimos que estávamos errados quando tudo parecia indicar que estávamos certos. Os próprios ateus discordam de todas as formas possíveis sobre qual o significado, origem e propósito da existência humana e do universo. Alguns por incontornável necessidade lógica estarão certos enquanto outros errados. (Aliás, assim como os religiosos.) Discordam inclusive sobre a possibilidade de responder certas perguntas.
Então eu diria que o que distingue a mim pessoalmente de um religioso padrão não é tanto o “estar certo” quanto POR QUE eu acho que estou certo. Eu não aceito argumentos de autoridade, tradição ou revelação como “provas” do que seja verdadeiro. E não acho que a fé seja uma boa base para um sistema de crenças. Portanto para mim o que me distingue de um crente padrão não é eu “estar certo” tanto quanto o que eu considero um argumento aceitável para alguém defender que está certo. Eu não acreditar em deus é uma posição circunstancial, não metodológica ou a priori. Caso ele descesse do céu e fizesse milagres na minha frente eu teria que repensar a idéia. Caso alguém definisse deus de uma forma que fizesse sentido e apresentasse evidências de que ele existe eu teria que repensar a idéia. Agora, enquanto isso não acontece, sugiro que é bem mais acreditável que ele seja um personagem mitológico.
não se deve esquecer que uns considerarão os outros a praga da humanidade
Isso está comicamente longe de descrever a posição seja do religioso médio, seja do ateu médio. Se formos seguir a tradição de algumas religiões, elas *de fato* oficialmente instam seus fiéis a considerarem todos os pagãos como pecadores, indignos e merecedores de punição eterna, mas felizmente grandes massas de religiosos não levam isso a sério. E uma grande massa entre os ateus acham religião equivalente a acreditar em Papai Noel : delirante mas inofensivo ou até mesmo positivo por fazer as pessoas mais felizes.
Mas qual será o fundamento subjetivo de sua diferença? Haverá uma atitude fundamental que distinga um grupo do outro?
Para *mim*, pessoalmente, a questão já está colocada da forma errada. Como eu disse antes, há muito mais unidade ideológica entre crentes do que entre não crentes. Se eu tivesse que buscar algo para distinguir os dois grupos, eu sinto vontade de dizer (porque é isso que *eu* pessoalmente sinto que me distingue) que para mim seria o que é aceito como critério de verdade, como eu disse acima. Mas que se note, isso é uma descrição caricatural, porque evidentemente há entre os ateus aqueles que apesar de não serem “crentes” no sentido proposto pelo Pedro, acreditam em todo tipo de disparates alucinados como astrologia, mágica ou espíritos. E até mesmo para não acreditar em deus há todos os tipos de motivos, desde “o governo mandou” até “isso é chique”. Não existe realmente unidade de atitude fundamental entre os ateus. Então não há como responder seriamente a esta pergunta.
Talvez pudéssemos recolocar a pergunta como : “Qual é a atitude fundamental que caracteriza os crentes?”. E mesmo essa, dada a diverdade do grupo, seria difícil de responder de forma não caricatural. Eu pessoalmente tendo a responder que é o triunfo da intensa necessidade instintiva de que a vida faça sentido e tenha um propósito sobre a percepção racional de que ela não faz e não tem. Mas isso sou eu. E além disso o complemento não é verdade; muitos não crentes sucumbem à mesma necessidade instintiva, apenas projetam sua necessidade psicológica de serem cosmicamente relevantes em outros tipos de fantasias.
diante da complexidade do mundo, o crente pressente a existência de uma inteligência transcendental, ao passo que, para o ateu, esse pressentimento é um passo indevido, uma projeção de quem observa o mundo.
Até aí, concordo plenamente. “Pressentir” coisas sem ir lá testá-las não é base para um sistema de crenças sobre como o universo funciona. Mas até mesmo sobre isso não é claro para mim que haja concordância generalizada entre os ateus.
O crente, ao perceber algo mais vasto que sua própria inteligência, julga tratar-se da obra de outra inteligência; o ateu, ao perceber algo mais vasto que sua própria inteligência, julga que o domínio dessa vastidão virá com o tempo. Parece que as duas atitudes refletem duas posições a respeito de uma possível ciência universal.
Discordo absolutamente. Tanto pessoalmente, quanto que isso remotamente descreva a posição da massa dos ateus, que freqüentemente dizem algo nas linhas de “Eu não sei, desconfio que você também não sabe, e sei lá se algum dia saberemos.” Certamente não descreve a *minha* posição.
Aliás, achar que o “domínio dessa vastidão virá com o tempo” é uma posição que não só não é representativa dos ateus como nem ao menos está com sintonia com o sentimento atual da comunidade científica. Algumas das descobertas mais importantes do século 20 tiveram a ver com se determinar a impossibilidade de conhecer certas coisas. Note, não digo nem a impossibilidade prática; digo a impossibilidade mesmo. Isso foi um grande golpe para muitos cientistas que acreditavam que a ciência poderia um dia saber ou explicar tudo. O próprio Einstein por exemplo nunca ficou muito feliz com o indeterminismo embutido na mecânica quântica e sempre considerou que isso não poderia representar como o universo realmente funciona, e tinha que ser sim um artefato da nossa ignorância sobre a realidade. O entendimento moderno é que ele estava equivocado sobre isso. Existem vários outros exemplos de importantíssimos resultados científicos obtidos modernamente sobre os limites – mesmo em tese – do conhecimento humano.
De um lado, o crente pergunta ao ateu: “E quando ficar evidente que a ciência universal é impossível, você passará a crer?”
Curiosamente, nunca nenhum crente colocou essa questão para mim, e duvido que a maior parte dos crentes se identificaria com essa pergunta. Alem disso, o fato de que a ciência universal é impossível já ficou – ironicamente e para grande surpresa da maior parte dos cientistas – cientificamente claro ao longo do século 20. Em particular para mim, é perfeitamente evidente que a ciência universal é impossivel e eu sigo não vendo qualquer motivo para diante disso acreditar em deus. Além disso, eu acho que *se* por hipótese houvesse uma ciência universal e se ela deixasse claro que a vida não faz qualquer sentido (como na minha opinião a nossa ciência parcial já indica fortemente), isso só aumentaria a necessidade emocional de irracionalmente acreditar em algo que dê magicamente sentido à vida. Acreditar em deus não é um ato de razão, é uma forma capenga de lidar com o desconhecido e com a falta de sentido. Como, aliás, essa própria pergunta parece indicar de forma embaraçosamente reveladora.
E o ateu pergunta: “E se a ciência universal acontecer, você deixará de crer?”
Ora bolas, se a ciência universal fosse atingida, ela nos informaria se deus existe ou não. Colocar qualquer possibilidade que não seja “eu acreditaria no que ela dissesse” demonstra precisamente a diferença de atitude entre crentes e ateus. Ou pelo menos entre mim e as pessoas que acreditam em coisas com base nas suas necessidades emocionais e não no que tudo indica que seja verdade.
É um tanto irresistível observar que, dita assim, a posição atéia parece se basear não num prometeanismo voluntarista, mas num prometeanismo inevitável: a transcendência não será mais necessária porque conquistá-la é só uma questão de tempo.
Eu não vejo por que motivo a tal inatingível “ciência universal” tornaria a transcendência “desnecessária”; talvez logicamente desnecessária, mas isso ela já é. O fato de que não podemos conhecer certas coisas é algo para ser aceito, não para ser “consertado” com “transcendência”. E a – diga-se de passagem, legítima – necessidade de transcendência espiritual é primordialmente psicológica, não lógica ou racional. Mas buscá-la projetando suas necessidades emocionais na estrutura da realidade e não em sua interpretação e significado é uma acochambração equivocada. A maioria absoluta das pessoas quando se aventura a falar da origem do universo não está realmente preocupada com de onde o universo *de fato* veio, e sim com qual o sentido de suas vidas.